Humanidades

A engrenagem da negação climática: como ciência e ambientalismo viraram alvo de uma reação organizada
Por mais de três décadas, uma articulação política, econômica e ideológica tem trabalhado para desacreditar o aquecimento global e atrasar políticas ambientais em escala mundial. Um novo estudo revela o 'DNA' desse movimento.
Por Laercio Damasceno - 19/01/2026


Divulgação


Apesar do consenso científico de que o aquecimento global é real, provocado majoritariamente pela ação humana e responsável por impactos ambientais severos, a negação das mudanças climáticas segue influente no debate público. Uma pesquisa publicada em 2025 na revista científica PLOS One lança luz sobre os bastidores desse fenômeno e identifica os pilares ideológicos que sustentam a rejeição à ciência do clima.

O estudo analisou 108 livros publicados ao longo de quase 30 anos, todos dedicados a contestar o aquecimento global antropogênico. O resultado aponta para algo que vai além da simples discordância científica: trata-se de um movimento estruturado de reação política, impulsionado por interesses econômicos e por uma visão de mundo hostil ao ambientalismo e à ciência de impacto.

Negar para preservar o status quo

Segundo os autores Peter J. Jacques, da Monmouth University, e Riley E. Dunlap, professor emérito da Oklahoma State University, a negação climática funciona como um contramovimento social, organizado para proteger sistemas de poder construídos desde a industrialização.

“O negacionismo climático é sustentado por uma lógica de anti-reflexividade, que rejeita tanto a ciência quanto o ambientalismo por ameaçarem estruturas de poder baseadas nos combustíveis fósseis”, afirmam os pesquisadores.


Os números da negação

A análise quantitativa revela a dimensão do fenômeno: 94% dos livros negam que o aquecimento global seja causado por atividades humanas; 81% rejeitam a existência ou a continuidade do aquecimento da Terra; 76% minimizam ou negam impactos ambientais, como elevação do nível do mar e eventos extremos; 94% atacam políticas de redução de emissões de gases de efeito estufa; 77% apresentam três ou mais tipos de negação simultaneamente.

Esses dados indicam uma consistência ideológica rara em debates científicos genuínos.

Os pesquisadores identificam quatro eixos clássicos da negação:

  • Negação da tendência (o planeta não está aquecendo);
  • Negação da causa (o ser humano não é responsável);
  • Negação dos impactos (o aquecimento seria inofensivo ou benéfico);
  • Negação das políticas (mitigação seria inútil ou prejudicial).

Mais recentemente, um quinto elemento ganhou força: o ataque direto à integridade da ciência e dos cientistas.

“A ciência climática é retratada como ‘junk science’, usada para impor agendas políticas e restringir liberdades”, observam os autores.

O estudo revela que o discurso negacionista associa o ambientalismo a ideias de autoritarismo, socialismo e ameaça à “forma de vida ocidental”. Em muitos livros analisados, políticas climáticas são descritas como instrumentos de controle social, capazes de gerar pobreza, guerras e perda de soberania nacional.

“O ambientalismo é apresentado como uma religião anti-humana, interessada em frear o progresso industrial”, descreve o artigo.

Um fenômeno político, não científico

Embora tenha nascido nos Estados Unidos, o movimento se espalhou internacionalmente, sobretudo em países com forte dependência econômica dos combustíveis fósseis. De acordo com o estudo, organizações ligadas à indústria e a think tanks conservadores movimentaram bilhões de dólares para financiar campanhas de desinformação, influenciar políticas públicas e moldar a opinião pública.

Para os autores, compreender a raiz ideológica da negação climática é essencial para enfrentá-la.

“Não se trata apenas de corrigir dados científicos, mas de reconhecer que a negação é uma estratégia política para evitar mudanças profundas no modelo econômico”, concluem Jacques e Dunlap.

Em um momento em que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam, o estudo reforça que o maior obstáculo à ação não é a falta de evidências, mas a resistência organizada contra qualquer transformação que ameace interesses consolidados.


Mais informações
Jacques PJ, Dunlap RE (2025) Fundamentos da negação das mudanças climáticas: Antiambientalismo e anticiência. PLoS One 20(11): e0334544. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0334544

 

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